Educação

Rio recebe milhões de turistas, mas o inglês ainda separa carreiras

Em uma manhã comum na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, dá para ouvir espanhol, francês, inglês e italiano em poucos quarteirões. A cena deixou de ser exceção. Em 2024, o…

Rio recebe milhões de turistas, mas o inglês ainda separa carreiras
Rio recebe milhões de turistas, mas o inglês ainda separa carreiras

Em uma manhã comum na Avenida Rio Branco, no Centro do Rio, dá para ouvir espanhol, francês, inglês e italiano em poucos quarteirões. A cena deixou de ser exceção. Em 2024, o estado do Rio de Janeiro recebeu mais de 1,5 milhão de turistas internacionais, alta de 26,8% sobre o ano anterior, segundo dados do Ministério do Turismo, da Embratur e da Polícia Federal. Em 2025, o número de estrangeiros na capital chegou a 2,1 milhões.

O paradoxo aparece quando o visitante precisa de uma informação simples. Do outro lado do balcão, do caixa ou da recepção, boa parte dos profissionais entende pouco do que é dito. O Rio se firmou como a principal porta de entrada do país, mas a maioria dos cariocas ainda não consegue conversar com quem chega.

Esse descompasso tem preço. Ele aparece na gorjeta que não vem, na venda que não fecha e na vaga de emprego que vai para outro candidato.

A cidade que virou a vitrine do Brasil

O turismo carioca vive seu melhor momento em mais de uma década. Só o município do Rio recebeu 12,5 milhões de visitantes em 2025, dos quais 2,1 milhões vindos do exterior, segundo levantamento da Prefeitura baseado em estudo do Instituto Fecomércio de Pesquisas e Análises. O gasto médio do turista internacional na cidade foi estimado em R$ 3.657, quase o dobro do registrado entre os brasileiros.

Argentina, Chile, Estados Unidos, França e Uruguai lideram a lista de países de origem. Para o visitante europeu ou norte-americano que não fala português, o inglês funciona como língua de passagem, usado para resolver desde o check-in do hotel até a compra de um ingresso ou o pedido em um restaurante.

O fluxo não se limita ao verão. O Rio combina o pico do Carnaval com um calendário de congressos, shows e competições esportivas que mantém o movimento ao longo do ano. Cada grande evento traz uma onda de pessoas que circulam por hotéis, bares, táxis e pontos turísticos, todos espaços onde a falta de inglês vira gargalo imediato.

Cada um desses contatos é uma pequena transação econômica. Hotelaria, gastronomia, transporte por aplicativo, comércio de rua e guias de turismo dependem da comunicação para concluir a venda. Quando ela falha, o dinheiro do turista encontra outro caminho, muitas vezes na barraca ou na loja vizinha.

Um país que quase não fala a língua de quem visita

O tamanho do problema fica claro nos números nacionais. Pesquisa do British Council com o Instituto Data Popular mostrou que apenas 5% dos brasileiros têm algum conhecimento de inglês, e somente 1% se considera fluente. Num país de mais de 210 milhões de habitantes, isso representa cerca de 2 milhões de pessoas capazes de sustentar uma conversa do início ao fim.

Os rankings internacionais confirmam o atraso. No Índice de Proficiência em Inglês da EF, o chamado EF EPI, o Brasil caiu da 70ª para a 81ª posição entre 2023 e 2024, com 466 pontos, faixa considerada de baixa proficiência. A edição seguinte trouxe leve recuperação, para a 75ª colocação, mas o país continuou atrás de vizinhos como Argentina, Uruguai e Bolívia.

As razões para o atraso passam pelo sistema de ensino e pelo custo. O inglês voltou ao currículo obrigatório das escolas em 1996, mas a falta de método e de prática oral deixa muitos estudantes presos na gramática, sem nunca chegar à conversa. Quem pode pagar busca reforço fora da escola, o que transforma o idioma em mais um marcador de desigualdade.

O relatório da EF revela um detalhe que pesa no trabalho: o brasileiro vai melhor em leitura, habilidade passiva, e tropeça justamente em fala e escrita, as competências mais exigidas em reuniões, negociações e atendimento ao público. Entender um texto é uma coisa. Conduzir um diálogo, responder a um cliente ou defender uma ideia em voz alta é outra bem diferente.

O salário que muda com um segundo idioma

Para quem busca recolocação ou crescimento, o inglês deixou de ser diferencial e virou filtro. Levantamento do site de recolocação Catho indica que profissionais fluentes no idioma chegam a receber até 61% a mais do que colegas sem essa qualificação. Entre quem tem curso superior, a diferença pode alcançar 65%, e em cargos de direção passa de 90%.

A lógica é direta. Vagas em multinacionais, trabalho remoto para empresas no exterior e funções que lidam com clientes internacionais pedem comprovação real do idioma. Anotar “inglês intermediário” no currículo já não basta, porque muitas empresas aplicam testes antes de contratar.

No Rio, onde setores como petróleo e gás, grandes eventos, tecnologia e turismo concentram operações de alcance global, essa exigência aparece com frequência ainda maior. O profissional que domina a língua disputa um conjunto de oportunidades que segue fechado para a maior parte da população.

Por que a sala de aula cheia trava o aprendizado

Se a demanda é tão evidente, por que tão poucos avançam? Boa parte da resposta está no formato. Em turmas de dez, quinze ou vinte alunos, o tempo de fala de cada um encolhe, as correções ficam genéricas e o ritmo acompanha a média do grupo, não a necessidade de quem está ali.

O resultado é conhecido por muita gente: anos de curso, certificados na parede e pouca capacidade de manter uma conversa. A pessoa entende o que lê, mas congela na hora de responder.

É nesse ponto que o ensino individual ganha espaço. Estudar com um professor particular de inglês permite ajustar conteúdo, ritmo e foco ao objetivo de cada aluno, seja conversação para o trabalho, preparo para uma certificação ou inglês voltado a uma área específica como direito, medicina ou tecnologia. Quem aprende fala durante a maior parte da aula, recebe correção na hora e avança no próprio compasso, sem esperar pela turma.

Estimativas usadas no ensino de idiomas indicam que sair do nível iniciante e chegar a um intermediário alto, suficiente para trabalhar, exige entre 500 e 700 horas de estudo, conforme a escala do Quadro Europeu Comum de Referência. Concentrar essas horas com acompanhamento direto tende a encurtar o caminho diante do modelo de sala lotada.

O que observar antes de recomeçar

Antes de definir por onde voltar a estudar, vale fazer um teste de nivelamento para identificar o ponto de partida na escala que vai de A1 a C2. A maioria das funções profissionais se resolve a partir do nível B2. Ter clareza da meta evita tanto estudar além do necessário quanto parar antes da hora.

A experiência e a certificação de quem ensina também contam. Credenciais como CELTA, TESOL e TOEFL indicam preparo para trabalhar com adultos e com objetivos definidos. Professores nativos ajudam na naturalidade e no sotaque, enquanto professores brasileiros costumam explicar melhor as regras e antecipar os erros típicos de quem aprende a partir do português. Não existe opção única correta, existe a que combina com o objetivo de cada aluno.

A modalidade fecha a lista de critérios. As aulas presenciais favorecem a imersão e o contato direto, enquanto as opções on-line ampliam os horários e eliminam o deslocamento, uma vantagem real em uma cidade onde o trânsito consome horas do dia. Muitos profissionais combinam os dois formatos conforme a rotina da semana.

O que o carioca pode fazer agora

O cenário tem dois lados que raramente se encontram. De um, uma cidade que nunca recebeu tantos estrangeiros e que projeta novos recordes para os próximos verões, com previsão de 1,2 milhão de visitantes internacionais só na alta temporada de 2026. De outro, uma população que, em sua maioria, não consegue aproveitar essa abertura por não falar a língua de quem chega.

Encurtar essa distância não depende de uma reforma educacional inteira nem de uma virada do país no ranking. Depende, antes, de decisões individuais, tomadas por quem percebe que o inglês saiu da lista de luxos e entrou na conta de quem participa da economia que desembarca pelo aeroporto e pelo cais.

O Rio já mostrou que sabe atrair o mundo. Resta a cada profissional decidir se vai conseguir conversar com ele.

Imagem: Magnific