Ibovespa: adiamento de negociações entre EUA e Irã gera cautela
As bolsas globais encerram uma semana forte em tom mais cauteloso. O alívio inicial com o acordo provisório entre Estados Unidos e Irã deu lugar a dúvidas sobre sua implementação e durabilidade.…
As bolsas globais encerram uma semana forte em tom mais cauteloso. O alívio inicial com o acordo provisório entre Estados Unidos e Irã deu lugar a dúvidas sobre sua implementação e durabilidade. As negociações previstas para ocorrer na Suíça foram adiadas após novos confrontos no sul do Líbano entre Israel e militantes do Hezbollah, grupo apoiado por Teerã, elevando a incerteza sobre a sustentação da trégua.
Com os mercados à vista dos EUA fechados pelo feriado de Juneteenth e uma agenda econômica esvaziada, os investidores concentraram suas atenções no Estreito de Ormuz. O tráfego marítimo voltou a preocupar diante de relatos de redução no fluxo de petroleiros, presença de minas, riscos de congestionamento e dúvidas sobre o grau de controle que o Irã poderá manter sobre a hidrovia. O petróleo voltou a subir em uma sessão volátil, embora ainda caminhe para uma das maiores quedas semanais do ano.
Nos mercados acionários, o Stoxx 600 opera sem direção definida, e as bolsas europeias mostraram cautela. Na Ásia, o desempenho foi misto, com destaque para a forte alta semanal do Nikkei, beneficiado pelo alívio nas expectativas de inflação e pelo bom desempenho global dos setores de semicondutores e inteligência artificial (IA).
No Brasil, o Ibovespa encerrou a quinta-feira (18) em leve queda de 0,10%, aos 168.278 pontos, enquanto o dólar à vista avançou 1,30%, para R$ 5,17, pressionado pelo tom mais duro do Federal Reserve (Fed) e pela leitura do comunicado do Copom. O Banco Central cortou a Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,25% ao ano, como esperado, mas surpreendeu ao manter aberta a possibilidade de novos cortes, em vez de sinalizar uma pausa mais clara no ciclo.
A comunicação gerou ruído porque, ao mesmo tempo em que reconheceu inflação acima da meta, expectativas desancoradas, atividade ainda robusta e riscos fiscais, o Comitê recorreu a um horizonte de projeção mais longo para justificar trajetórias alternativas. Para o mercado, essa abordagem soou excessivamente heterodoxa. A decisão foi interpretada por parte dos investidores como mais dovish do que o esperado, ou seja, mais inclinada à continuidade do afrouxamento monetário.
A alta do dólar e a abertura da curva de juros mostraram que o mercado passou a questionar a consistência da comunicação e a credibilidade da estratégia da autoridade monetária, especialmente em um ambiente marcado por risco fiscal e pelo avanço do calendário eleitoral. A dinâmica do câmbio passa a ser um ponto de acompanhamento, pois pode limitar a continuidade do ciclo de cortes da Selic.
Antes do feriado desta sexta-feira (19) nos EUA, os índices americanos reagiram positivamente ao memorando de entendimento de 14 pontos assinado entre os EUA e o Irã, interpretado como um passo relevante para encerrar meses de hostilidades e reabrir o Estreito de Ormuz. A suspensão dos combates por 60 dias, o fim do bloqueio naval americano e a possibilidade de remoção gradual das sanções contra Teerã contribuíram para reduzir o prêmio de risco geopolítico, levando o petróleo Brent para perto de US$ 80 por barril e impulsionando tanto ações quanto títulos.
O S&P 500 avançou 1,1%, o Nasdaq subiu 1,9% e o setor de tecnologia teve alta de 2,9%. Ao mesmo tempo, os investidores passaram a lidar com uma mudança importante no Federal Reserve sob a presidência de Kevin Warsh, cuja primeira reunião trouxe uma mensagem mais dura do que o esperado. Embora o Fed tenha mantido os juros estáveis pela quarta reunião consecutiva, a ausência de orientação futura e o foco explícito no combate à inflação levaram o mercado a precificar mais de 80% de chance de alta dos juros em setembro.
Os Estados Unidos e o Irã adiaram o início das negociações sobre um acordo de paz e sobre a restrição do programa nuclear iraniano, inicialmente previstas para ocorrer na Suíça. A justificativa oficial ainda não está totalmente clara: a Casa Branca atribuiu o adiamento a dificuldades logísticas, enquanto Teerã vinha sinalizando que só avançaria para discussões técnicas após sinais concretos de implementação do acordo interino. O cancelamento da viagem do vice-presidente JD Vance aumentou a incerteza sobre a sustentação da trégua, em meio a novos confrontos entre Israel e militantes do Hezbollah no sul do Líbano.
O memorando provisório assinado por Donald Trump e Masoud Pezeshkian reduziu parte do risco geopolítico imediato e permitiu a retomada parcial do fluxo de petróleo pelo Estreito de Ormuz. Ainda assim, os mercados passaram a interpretar o acordo com mais cautela, uma vez que a normalização das cadeias logísticas e energéticas pode levar meses, enquanto o Irã mantém restrições operacionais à navegação durante as operações de desminagem. O texto prevê uma janela de 60 dias para negociar o status do programa nuclear iraniano, a redução do grau de enriquecimento do material nuclear sob supervisão da AIEA, isenções para exportações de petróleo, acesso a cerca de US$ 24 bilhões em fundos congelados e um plano de reconstrução de US$ 300 bilhões.
No plano político, o acordo enfrenta resistência em Washington, em Israel e entre aliados regionais, sobretudo pela percepção de que Teerã recebeu concessões relevantes antes de assumir compromissos mais claros sobre seu programa nuclear. Ao mesmo tempo, os EUA ampliaram sanções contra autoridades libanesas e redes empresariais associadas ao Hezbollah, acusadas de obstruir o processo de paz e financiar o grupo. Para o Irã, o acordo oferece um alívio econômico, mas também expõe fragilidades internas, com a liderança do país enfraquecida e sinais de instabilidade política.