Ibovespa: risco político no Brasil e payroll dos EUA no radar
Os mercados globais operam em tom cauteloso, com investidores à espera do payroll de junho nos Estados Unidos. O dado ganhou relevância diante da ausência de uma orientação mais clara de Kevin…
Os mercados globais operam em tom cauteloso, com investidores à espera do payroll de junho nos Estados Unidos. O dado ganhou relevância diante da ausência de uma orientação mais clara de Kevin Warsh sobre os próximos passos da política monetária. Em sua primeira participação pública como presidente do Fed, Warsh afirmou que os riscos inflacionários e as expectativas de inflação recuaram recentemente, mas reforçou que o Comitê segue comprometido com a estabilidade de preços.
Na Europa, o Banco Central Europeu mostra divisão interna sobre a trajetória dos juros. Parte dos dirigentes, como Philip Lane, ainda vê pressões inflacionárias decorrentes da guerra no Oriente Médio. Outros se mostram mais confortáveis com a queda recente do petróleo e com a ausência de choques de segunda ordem mais evidentes.
No restante do cenário global, três temas concentram as atenções. As negociações indiretas entre Estados Unidos e Irã avançaram em Doha, ajudando a pressionar o petróleo. A correção em ações ligadas à inteligência artificial, especialmente semicondutores, ganhou força na Ásia. Os Estados Unidos decidiram não prorrogar o USMCA, mantendo o acordo com Canadá e México em vigor, mas agora sujeito a revisões anuais. Esse arranjo aumenta a incerteza para as cadeias produtivas norte-americanas, especialmente nos setores automotivo, agrícola, varejista e de energia.
Política volta a pesar no Brasil
No Brasil, o mercado doméstico abriu julho em tom defensivo. A pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada ontem, ao mostrar Lula à frente de Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno, reforçou entre investidores a percepção de continuidade de uma política fiscal menos austera a partir de 2027. O ambiente piorou com as sanções do Tesouro americano contra cidadãos e empresas brasileiras por supostos vínculos com organizações criminosas classificadas como terroristas. Rumores de novas denúncias envolvendo a principal candidatura da oposição ampliaram a aversão ao risco.
No campo econômico, os dados de crédito de maio reforçaram sinais de arrefecimento da atividade, apesar do aumento das concessões. Também pesaram no radar a decisão da União Europeia de impor novas restrições e tarifas sobre produtos siderúrgicos brasileiros. O governo indicou que deve reverter na próxima semana a subvenção usada para conter os preços da gasolina.
A fala em Sintra
As bolsas americanas tiveram um pregão misto. O Nasdaq caiu 0,7%, o S&P 500 recuou 0,2% e o Dow ficou praticamente estável. A queda foi puxada por grandes nomes do setor de chips, com o ETF iShares Semiconductor recuando 6,4%, após uma reportagem indicar que a Meta poderia vender capacidade computacional excedente. A notícia reacendeu preocupações sobre um possível excesso de oferta em infraestrutura de IA. Na direção oposta, as ações de software avançaram após uma nota otimista de uma casa americana, com o ETF do setor subindo 2%.
Kevin Warsh adotou no Fórum do BCE em Sintra um tom inicialmente interpretado como mais dovish ao afirmar que os riscos inflacionários diminuíram. Ainda assim, reforçou o compromisso do Fed com a estabilidade de preços. A atenção agora se volta para o payroll de junho, com consenso próximo de 113 mil a 115 mil vagas, após 172 mil em maio, e taxa de desemprego esperada em 4,3%.
Limites da estratégia de Trump
Ian Bremmer, fundador da Eurasia Group, argumenta que o período de maior capacidade disruptiva de Donald Trump no cenário internacional provavelmente ficou para trás. Dois episódios recentes teriam exposto os limites dessa estratégia: a escalada tarifária contra a China e a guerra contra o Irã. No caso chinês, Pequim respondeu usando seu controle sobre terras raras e minerais críticos. No caso iraniano, Teerã reagiu com retaliações contra bases dos EUA e infraestrutura energética no Golfo. A ideia central é que Trump continuará poderoso e ruidoso, mas com menor capacidade de provocar danos globais duradouros.