Ibovespa cai com fim de cessar-fogo; petróleo dispara
Os mercados globais amanheceram em forte aversão ao risco após Donald Trump afirmar que o cessar-fogo provisório com o Irã “acabou” e classificar as negociações como perda de tempo. A declaração veio…
Os mercados globais amanheceram em forte aversão ao risco após Donald Trump afirmar que o cessar-fogo provisório com o Irã “acabou” e classificar as negociações como perda de tempo. A declaração veio depois de novos ataques americanos contra mais de 80 alvos iranianos, em resposta a ataques a embarcações no Estreito de Ormuz, e da revogação da isenção que permitia a venda de petróleo iraniano. O movimento reacendeu os temores de interrupção no fornecimento global de energia. Ao mesmo tempo, os rendimentos dos títulos públicos avançaram, refletindo a preocupação dos investidores com um novo impulso inflacionário.
Além da geopolítica, o setor de semicondutores voltou a pesar lá fora. A queda se intensificou após os resultados da Samsung alimentarem dúvidas sobre a sustentabilidade dos valuations elevados das empresas ligadas à inteligência artificial. Na Ásia, o Kospi entrou em mercado de baixa técnico, enquanto as ações chinesas negociadas em Hong Kong reagiram positivamente, apoiadas por valuations mais baixos e por notícias envolvendo o desenvolvimento de chips próprios de IA por empresas locais. A agenda do dia ainda inclui a divulgação da ata do FOMC, em um momento de reavaliação dos riscos para inflação e juros.
No Brasil, o Ibovespa chegou a operar em alta na manhã de ontem, apoiado pela rotação de portfólios no exterior em um dia de queda para ações ligadas à inteligência artificial, mas perdeu força com a piora do cenário geopolítico. A retomada das tensões no Oriente Médio impulsionou o petróleo, fortaleceu o dólar e pressionou ativos tanto no Brasil quanto no exterior. Hoje, voltamos a ver pressão negativa.
Na agenda comercial, o segundo dia da audiência pública do USTR manteve em foco a possibilidade de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros. O governo brasileiro reforçou a estratégia de manter as negociações abertas até a decisão americana, prevista para 15 de julho, enquanto representantes do setor produtivo defenderam a retirada da sobretaxa e contestaram os fundamentos da investigação. Flávio Bolsonaro usou sua participação para criticar o governo Lula, pedir que a decisão sobre as tarifas fosse adiada para depois das eleições e argumentar que uma taxação imediata poderia favorecer politicamente o atual presidente do Brasil.
Ainda no campo eleitoral, a campanha de Flávio Bolsonaro enfrentou novos ruídos após integrantes de sua coordenação participarem de um evento em Washington com Marco Rubio e empresários brasileiros sem comunicação prévia aos aliados. O episódio gerou desconforto dentro da campanha, especialmente entre setores mais radicais do bolsonarismo, que brigam por protagonismo. Essa divisão interna tende a enfraquecer a oposição e pode aumentar as chances de reeleição do incumbente.
Nos Estados Unidos, os mercados fecharam em queda ontem, pressionados principalmente pela realização de lucros nas ações de tecnologia e semicondutores. O Nasdaq recuou 1,2%, o S&P 500 caiu 0,5% e o Dow Jones perdeu 0,3%. Ainda assim, a leitura interna do pregão foi menos negativa do que os índices sugerem: seis dos 11 setores do S&P 500 encerraram em alta, com destaque para energia, que avançou 3%, enquanto 56% das ações do índice fecharam no campo positivo. O principal peso veio dos semicondutores após os resultados da Samsung.
No fim do dia, a alta dos rendimentos dos títulos do Tesouro americano reforçou o tom de cautela. O movimento ocorreu depois dos americanos revogarem as isenções às sanções ao petróleo iraniano, em resposta a ataques contra navios comerciais. A agenda conta com a divulgação da ata do FOMC, referente à primeira reunião de Kevin Warsh. O mercado buscará sinais sobre a postura do Fed diante da inflação persistente e da preferência de Warsh por uma comunicação com menor uso de forward guidance e da possibilidade de uma alta de 25 pontos-base nos juros até outubro.
A tensão no Estreito de Ormuz voltou a se intensificar após três petroleiros serem atingidos, incluindo o Al Rekayyat, carregado com gás natural liquefeito, que sofreu um incêndio na casa de máquinas depois de ser atingido por um drone. O Catar responsabilizou o Irã pelo ataque, enquanto um navio de bandeira saudita, possivelmente o superpetroleiro Wedyan, também registrou avarias próximo à costa de Omã. O episódio ocorre em meio ao colapso do memorando de entendimento entre Estados Unidos e Irã, depois que Trump declarou o acordo “encerrado”, Teerã atacou bases americanas no Bahrein e no Kuwait, e Washington revogou a licença que autorizava exportações de petróleo iraniano, mantendo apenas um período de transição até 17 de julho para a liquidação das operações já contratadas.
O ponto mais sensível é que o Irã parece tentar ampliar seu controle sobre a navegação em Ormuz, possivelmente por meio do lançamento de minas para direcionar o tráfego comercial para mais perto de sua costa. Caso as alegações americanas sejam verdadeiras, isso daria a Teerã maior capacidade de monitorar embarcações, impor condições de passagem e até cobrar taxas, em uma disputa direta com os Estados Unidos pelo controle da rota. Como o Estreito segue operando abaixo do normal, enquanto exportadores de energia ainda tentam restabelecer plenamente o fluxo por essa via estratégica, os mercados reagiram de forma imediata: o petróleo subiu mais de 5% nesta manhã, acima de US$ 78 por barril, e o Departamento de Defesa dos EUA anunciou novos ataques de represália.